Aquele texto sem título

Poucas pessoas devem saber, mas a piscina é um bom lugar pra chorar quando você não pode ficar sozinha e não quer que ninguém te veja fazendo isso.

Em primeiro lugar, você já está molhada, dentro da água. Impossível dizer a diferença entre uma lágrima escorrendo e as gotas da piscina espalhadas pelo corpo. Em segundo lugar, você está suada, vermelha e quente, então as manchas no seu rosto não vão ficar aparentes. E ainda tem a possibilidade de usar óculos escuros pra ajudar.

Além disso, todo mundo ao seu entorno está preocupado com as próprias coisas, bronzeado, suor, óculos escuros e diversão. Se você permanecer boiando de barriga pra cima, totalmente imóvel e em silêncio, aos pouco sua presença vai sendo deixada de lado.

Enquanto você chora sem ninguém perceber, pode aproveitar pra olhar as nuvens, o que pode te acalmar ou te fazer sentir menos mal. Sempre gostei de observar nuvens. Elas são totalmente mutáveis e ao mesmo tempo únicas em seus milésimos segundos de existência. Se transformam num piscar de olhos ou mais rápido do que isso. A menos que você tire uma foto, não é possível ver a mesma nuvem duas vezes. Um espetáculo que acontece todos os dias bem em cima da nossa cabeça e que muitas vezes passa despercebido. Como tantos outros na vida. Mas não acho que saberíamos lidar com muitos espetáculos para serem observados ao mesmo tempo. Já está de bom tamanho conseguir perceber pelo menos um.

Então, agora talvez mais calma, você pode mergulhar e lavar as gotinhas salgadas na água cheia de cloro, bem a tempo de ouvir alguém chamar seu nome. Passou, você sai da piscina tranquilamente. Nenhuma marca, nenhum barulho.

Sempre me pergunto se alguém percebe minhas lágrimas na piscina ou se elas se misturam e se integram facilmente ao resto da água. Espero que ninguém perceba. Esse é um espetáculo que ninguém precisa ver.

*

Pois é, quem já me conhece sabe que de tempos em tempos crio a famigerada coragem e posto algum texto que escrevi por aqui. Hoje acordei com essa vontade e aí está.

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O homem que não queria falar

Era uma vez um homem. Ele morava em um pequeno e velho apartamento no centro barulhento de uma cidade. O prédio ficava em uma travessa estreita e movimentada, o que fazia com que o barulho fosse ainda maior.

De uns tempos para cá, o homem começou a se sentir cansado. Não suportava mais aquela cidade, aquele barulho, todos os compromissos, todas as explicações que recebia e que tinha que dar. Ele estava certo que enlouqueceria e estava mais certo ainda que a culpa de tudo isso era dos seres humanos. Foram os humanos que deixaram o mundo chegar ao ponto em que estava, foram eles que criaram as línguas, os papeis, as máquinas, os prédios, tudo isso que deixava o mundo confuso, sujo, onde tudo tinha que ser explicado, ter uma razão, um objetivo. E mais, ele tinha certeza que foram essas invenções que criaram as guerras e que deixaram o mundo tão barulhento como estava. E ele só queria paz.

Naquela dia, tomou uma decisão: iria se isolar do mundo em seu apartamento e nunca mais falaria, não só com outras pessoas, mas ele nunca mais pronunciaria nenhuma palavra. Dessa forma ele viveria totalmente em paz, completamente diferente dos outros humanos, não tendo que se relacionar com mais nada e com mais ninguém.

Para que isso fosse possível, ele teria que se desfazer de tudo aquilo que o comunicava com outros homens. Então ele jogou o telefone fora, arrancou a campainha e quebrou o botão do seu interfone. Pronto, incomunicável.

Retornou ao quarto e aos poucos o zumbido da rua invadiu seu cubículo. Claro, ele teria que fechar as janelas permanentemente e foi isso que fez. Afinal, se não queria falar com os outros era porque também não queria ouvi-los.

Ainda xingando o barulho da rua, deitou em sua cama, tentando relaxar. Ele sentiu um efeito positivo de seu plano, ainda que mais psicológico do que real. Ficou tão satisfeito com suas decisões que começou a cantarolar uma música antiga que conheceu na adolescência.

Naquele momento, enquanto sua voz chegava a seus ouvidos, ele percebeu algo. O fato de que não quisesse mais falar não significava que ele não pudesse. Se ele ficasse com raiva iria xingar, se ficasse alegre iria cantar, se ficasse triste iria se lamentar. A fala era quase algo involuntário, era uma função do seu corpo humano e por causa disso ele corria o risco de falhar no seu próprio plano. Era inadmissível, ele tinha que ser o mais fiel àquela decisão. Passou um tempo pensando e chegou à conclusão de que a única forma para que ele não falasse mais era, de fato, se ele não pudesse. E o único jeito de que isso acontecesse era tirando aquilo que o possibilitava de falar: a língua.

Pegou a melhor tesoura que tinha em casa, foi para frente do espelho e esticou a língua. Mediu o maior pedaço que conseguia alcançar com a tesoura e cortou. O pedaço de carne caiu na pia. Ele o jogou no vaso sanitário e deu descarga.

Voltou para o quarto feliz. Agora não teria como quebrar seu plano. Deitou-se novamente e começou a pensar em que atividades ele poderia fazer já que ficaria trancado em seu quarto para sempre.

Começou a fazer uma lista mental quando deu um salto da cama. Ele não estava mais falando para fora, mas estava falando para dentro. Como havia sido inocente. As palavras não estavam só na sua língua, mas estavam também na sua cabeça. Por causa disso ele ainda conseguia cantarolar a música, ouvir o barulho da rua, ver seus vizinhos conversando, as crianças brincando na travessa, as máquinas da fábrica funcionando, sua campainha tocando. Tudo aparecia em sua cabeça como se ele estivesse contando para ele mesmo.

O homem ficou sem saber o que fazer. Começou a andar de um lado para o outro no apartamento, nervoso, se debatendo. Como ele se livraria do mundo se as palavras dentro da sua cabeça o construíam novamente? Quem sabe se ele vivesse em um lugar vazio, sem nada, aos poucos ele não esquecesse de tudo e sua cabeça ficasse vazia também?

Totalmente descontrolado, abriu as janelas e começou a quebrar e a jogar suas coisas na rua. Tudo o que tinha, tudo o que conseguia carregar foi jogado pela janela. Livros, fotografias, roupas, móveis. No quarto não sobrou quase nada.

Mas aquilo não foi suficiente. O homem continuou a andar nervoso pelo apartamento, pensando no que ainda poderia fazer. Tudo continuava em sua cabeça e quanto mais ele pensava, pior ficava. Não bastaria o lugar estar vazio porque sua cabeça também deveria estar. Então ele pegou a mesma tesoura que havia usado para cortar a língua e começou a furar sua testa. Quem sabe assim tudo não vazasse pelos furos e jamais retornasse?

Depois de horas se debatendo, o homem caiu no chão, cansado. Ele não tinha mais forças para continuar e percebeu que seu plano jamais daria certo. Era impossível se livrar do mundo porque o mundo estava nas palavras e as palavras estavam dentro dele.

Sendo assim, o homem não viu outra saída. Como se livrar do que estava dentro dele? Não existindo mais. A morte era a solução. Por que não havia pensado nisso antes? Era a resposta mais rápida e mais óbvia.

Se levantou do chão e caminhou até a sacada. Olhou para baixo. Ele morava no sexto andar, era uma boa queda. Fechou os olhos, torcendo para que fosse rápido e indolor. Ao abrir os olhos, porém, ele viu uma mulher na sacada do prédio em frente ao seu. A travessa era muito estreita e, por causa disso, estavam relativamente perto.

Ela era, certamente, a mulher mais bonita que já havia visto. Os cabelos caídos pelos ombros e o simples vestido de verão estavam iluminados pelo sol que começava a se pôr. Então ele sentiu um aperto no peito.

A mulher olhou para ele também e nesse momento alguma coisa aconteceu. O homem ficou imerso nos olhos dela e não mais falou e não mais pensou naquele instante eterno.

***

Esse texto foi escrito por mim para uma disciplina do mestrado nesse último semestre. O trabalho consistia em escrever um texto baseado no que estudamos a partir do livro Infância e História, de Giorgio Agamben.