O menino que queria saber

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Miguel era uma menino que queria saber muitas coisas. A impressão que ele tinha é que todo mundo sabia as respostas, mas nem sempre queriam responder suas perguntas. Seus pais, a professora, o gato, o passarinho… todos sabiam tudo, menos ele. Até que Miguel um dia ficou sabendo da Máquina-que-sabe-tudo e resolveu ir atrás dela, que parecia ser a única solução para os seus problemas.

Spoiler inofensivo número 1: nós não sabemos exatamente o que ele quer saber.

Spoiler inofensivo número 2: o caminho pra chegar até a Máquina é muito mais interessante do que todo o resto.

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Só pra variar, esse é um daqueles livros infantis que servem super bem pra nós adultos.

Quem nunca esteve com uma criança que faz perguntas sobre tudo o tempo todo? E quem nunca cresceu e continua com vontade de fazer perguntas mas só que agora tem vergonha? Pra essa pergunta posso responder: euzinha.

Esse livro, então, me fez pensar em duas coisas.

A primeira é algo que eu já falei aqui no blog nesse outro post sobre como parece que com o tempo vamos perdendo essa curiosidade inocente pelas coisas do mundo. Seja por falta de tempo, de paciência, de interesse…

A segunda coisa é que, por causa disso, acho que acabamos querendo as respostas rápido demais e talvez mastigadas demais porque, novamente, isso poupa tempo, paciência e interesse por algo que talvez não interesse tanto naquela hora. E aí, vira um ciclo. Não é fácil colocar na cabeça que o processo e as experiências do meio do caminho são mais importantes do que o resultado das coisas.

Mas Miguel é um menino que não tem medo de perguntar e que não tem medo de ir atrás das respostas e se aventurar nesses caminhos de insegurança. Quando ele ficou sabendo da existência da Máquina, descobriu que ela ficava na cidade grande. Só que pra chegar até lá, ele teria que atravessar toda a floresta, habitada por feiticeiras, monstros e animais ferozes.

Bom, atravessar a floresta não ia ser tão fácil assim.

O menino sentou-se numa pedra à beira do caminho para resolver desistir de tudo e voltar para casa sem saber, ou continuar e enfrentar os perigos para encontrar a tal máquina.”

E aí, vocês se arriscariam?

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Bom, pra quem ainda não sabe, esse post é resultado da parceria do blog com as Editoras Biruta e Gaivota, que são dedicadas à literatura infantil e juvenil, além de terem publicações sobre educação voltada pra professores. Quem me acompanha por aqui, já sabe que eu rodeio essas áreas há muito tempo e fico feliz de ser parceira de uma editora que trabalha exclusivamente com esse público.

Os livros são só amor e fiquei perdidinha pra escolher qual eu queria! Mas só pela sinopse, eu já senti que esse teria muito a ver com várias questões que já discuti por aqui. E estava certa.

O Menino que queria saber foi escrito por Marion Villas Boas, com ilustrações de Marta Strauch, e lançado em 2011 pela Biruta. No link do site tem como vocês verem o livro por dentro! Passem por lá!

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Meu tio | Livros & Cinema

Vou começar contando como conheci Meu tio. Foi um daqueles casos de alguém que te indica um filme – no caso minha irmã – e aí um ano depois você decide assistir. Mas antes disso, numa daquelas mega promoções da Cosac Naify, dei de cara com o livro Meu tio e pensei: olha, que legal, aquele filme que não vi foi baseado num livro. Tá barato e parece bom. Comprei.

Aí depois que descobri que o livro foi baseado no filme. Acho que é a primeira vez que leio primeiro um livro que veio depois do filme. Acho que ficou confuso, ficou? Enfim, vamos lá porque quero falar várias coisas.

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Meu tio conta a história de Gérard Arpel, um menino de 8 anos, e suas aventuras com seu tio, o Sr. Hullot. A família Arpel era muito chique e vivia em uma casa ultra moderna projetada pelo próprio Sr. Arpel, que era dono da Usina Plastac, uma fábrica de tubos de plástico. A casa quase que fazia tudo sozinha, pra cada coisa existia um botão, portas que se abriam sozinhas, braços mecânicos pra pegar e guardar coisas, e uma fonte no formato de peixe que era o orgulho do casal. A Sra. Arpel tinha um amor incondicional pela casa e dedicava 100% do seu tempo a ela.

Apesar de todo o conforto, Gérard achava tudo meio chato, não podia brincar, não podia se sujar e tinha que seguir várias regras dentro de casa. E então acabou encontrando liberdade e diversão com seu tio, irmão de sua mãe. Sr. Hullot morava em um bairro diferente, perto de uma praça onde sempre acontecia a feira. O lugar era agitado, as pessoas conversavam na rua, os meninos brincavam e tudo parecia mais alegre e cheio de vida. Gérard era encantado por isso tudo e pelo jeito leve e despreocupado que seu tio levava a vida. Despreocupado até demais!

Meu tio Hullot me parecia, quando eu era criança, um personagem ao mesmo tempo próximo e distante, indiferente e caloroso. É difícil explicar, eu sei. (…) ele era bem alto e bem magro. Andava aos tropeços, meio curvado para a frente, e saía distribuindo cumprimentos sem motivo.

(…) Ele era perseguido por uma fatalidade que o mergulhava em todo tipo de problema. Não perdia a oportunidade de dar uma gafe, de fazer uma trapalhada, mas, pelo jeito como aceitava os golpes do acaso, impassível, impenetrável, sem nem franzir as sobrancelhas, sem reclamar, eu me perguntava de vez em quando se ele não provocava o incidente de propósito.”

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Seguindo a ordem dos acontecimentos na minha vida, vou começar falando do livro. Ele foi escrito pelo Jean-Claude Carrière, um escritor e cineasta bem importante e que ainda está vivo, vale lembrar. Tem gente que acha sem graça, mas eu adoro um livro com ilustrações. Essas foram feitas pelo Pierre Étaix e só depois descobri que eram baseadas nas cenas do filme.

O que me fez gostar do livro – mais do que o filme – foi o fato de que ele é escrito em forma de uma lembrança. Gérard, já adulto, relembra as aventuras que viveu com seu tio, então ali tem um tom nostálgico e até um pouco triste que me agradou e pareceu bem perto da nossa realidade. É engraçado porque às vezes tenho a impressão de que a gente romantiza bastante nossas memórias e que provavelmente as coisas não foram assim como a gente imagina. Mas não importa. O que importa é o sentimento que ficou. Gérard tinha uma admiração enorme pelo seu tio e os lugares por onde passou com ele ficaram marcados de boas lembranças que só trazem um sentimento bom.

Acho que isso acontece com todos nós, não é mesmo?

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No livro, o narrador é o menino Gérard, mas no filme a perspectiva é um pouco diferente. O filme, lançado em 58, foi dirigido e protagonizado pelo próprio Jacques Tati e tem todo um quê de comédia e teatro que acho que nunca vi em outro filme. Os cenários são muito teatrais e as atuações também e acho que parte da graça está aí.

A abordagem é diferente porque não há narrador, o que vemos é a história da família Arpel e as confusões do Sr. Hullot. Então ele perde um pouco o tom mais emotivo que tem no livro, mas continua bom, pode confiar!

Acho que o filme também enfatiza mais e faz uma certa crítica às tecnologias, aos gadgets e à toda a modernização da vida das pessoas. A relação do casal Arpel com a casa é um exagero e às superficialidades das relações que eles tem com outras pessoas é muito contrastante com o que o Sr. Hullot vive no seu bairro. As poucas tentativas que a família Arpel faz de integrar o tio ao mundo deles – por exemplo, colocá-lo para trabalhar na fábrica ou tentar juntá-lo com uma vizinha – são desastrosas. Não dá, a praia do tio Hullot é outra, mas ver tudo isso acontecer no filme é bem engraçado.

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Meu objetivo não é fazer uma comparação pra ficar julgando aqui, longe de mim! Tanto o filme quanto o livro são ótimos, mas, pessoalmente, eu gostei mais do livro porque mexeu também com minhas próprias lembranças. E ambos são bem universais, fazem sentido pro público mais jovem e também pros mais velhos, então todo mundo sai ganhando!

Jacques Tati e seu personagem Sr. Hullot são bem conhecidos, mas foi a primeira vez que eu assisti/li algo deles. Se vocês não conhecem também, fica a recomendação! Vou deixar um trailer pra vocês visualizarem o clima da história!

Graça Infinita – Diário de leitura #fim

No primeiro post do Diário de leitura de Graça Infinita, em julho, eu estava na página 143. No dia 19 desse mês, exatamente às 21h da noite, eu terminei de ler o livro. Desde então estou assim: por onde começar a escrever sobre ele?

Poderia dizer que é um dos melhores livros que já li na vida? Poderia. Poderia dizer que ri e chorei enquanto lia? Poderia. Que David Foster Wallace tinha uma mente brilhante? Que ele conseguiu prever algumas coisas na década de 90 que estão acontecendo hoje? Que os personagens são excêntrico porém muito reais? Poderia. Poderia falar um monte de coisas. Então resolvi que vou mais fazer um registro da minha experiência de ter lido esse livro do que uma resenha em si (até porque eu não conseguiria fazer uma resenha).

Vou começar dizendo que acabei de acabar de ler, mas já estou pronta pra ler de novo. Na verdade, a única coisa que eu quis fazer quando terminei, foi começar novamente. É irresistível. Já relemos algumas coisas (Dudu também terminou a leitura), mas não vou encarar tudo de novo agora. Acho que vou marcar uma data pra reler.

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É engraçado porque geralmente nos interessamos por um livro por causa de sua história ou do tema ou do autor… mas eu sabia muito pouco sobre o Graça e não lembro direito os motivos pelos quais resolvi comprá-lo. E quando ele chegou em casa e meu namorado começou a ler ele me disse: não leia a sinopse que está na contracapa. E não li. Então foi tudo meio às cegas. Por causa disso, estou meio travada pra escrever aqui. Não gostaria de dar mais informações do que eu tinha quando conheci o livro, seria meio contraditório, sabe como é?

Mas enfim, como contei no primeiro Diário de leitura, fiquei perdida no começo. A história não é contada de maneira linear, não há apresentações muito formais dos personagens. Tem situações e episódios um pouco surreais deslocados dentro dos capítulos, que aparecem e somem sem explicação. Tem quase 200 páginas de notas de rodapé. E tem muitos, mas muitos personagens.

Agora, depois de conhecer toda a história, posso contar pra vocês um pouquinho com mais segurança, mas é basicamente o que eu sabia antes de ler. Tem dois grandes núcleos de personagens no livro. O primeiro envolve a família Incandenza (James e Avril e os filhos Hal, Mario e Orin) e a Academia de Tênis Enfield, onde Hal estuda e treina tênis, junto com mais um monte de outras crianças e adolescentes. E o segundo núcleo envolve a Casa Ennet, um centro de reabilitação para usuários de drogas. O que tinha me deixado mais curiosa pra ler no início foi o fato de James Incandenza ser um cineasta que tinha feito um filme assim muito espetacular capaz de mudar a vida das pessoas. Como tudo iria se encaixar no livro, ainda não sabia, mas eram muitas páginas e certamente uma hora tudo iria se explicar. E isso é só o que tenho pra contar porque, vou ser sincera, a história que envolve toda essa gente é boa, mas o livro não é só sobre isso.

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David Foster Wallace conseguiu descrever as pessoas e a sociedade de um jeito que eu nunca vi em outro lugar. É degradação humana atrás de degradação humana, de todos os tipos e em vários níveis. É um livro sobre como viver e morrer, sobre o relacionamento humano (principalmente o familiar), sobre Entretenimentos, sobre a mídia, sobre vícios e obsessões. E não importa se você não é um adolescente campeão no tênis ou um traficante ou um assassino ou um drogado em reabilitação ou uma locutora misteriosa de um programa de rádio, de uma maneira ou de outra você vai acabar se identificando com eles. Por mais horrorosa que seja a história que DFW escreve sobre esses personagens estranhos, ele simplesmente arrumou um jeito de (nessa diferença absurda entre nós e eles) encontrar coisas comuns, problemas, atitudes, decisões de vida que vamos enfrentar ou que já enfrentamos um dia.

Acho que foi uma das coisas que mais me deixou abalada pelo livro. Tá todo mundo fodido e ninguém escapa das fragilidades da vida. Viver é difícil, conviver também, perceber os problemas e perceber que tem gente que não consegue resolvê-los ou que tem gente que não tem outra opção senão encarar aquilo tudo ou que sabemos como tudo poderia ser melhor, mas simplesmente não temos coragem pra mudar… tá tudo aí nessa história. É difícil ouvir verdades e é difícil notar que somos partes de um sistema que, muitas vezes, não quer deixar a gente sair dele.

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Pra mim, o Graça teve 3 estágios. Primeiro, a gente começa a ler e fala ah, que merda é essa, não tô entendo pra onde essa história vai. Quem é essa pessoa? O que é essa sigla? Me dá uma explicaçãozinha! Aí, no segundo estágio, a gente passa a conhecer os personagens e algumas questões centrais e tudo começa a se ligar. Nos chateamos com algumas partes meio longas que continuam sem explicação, mas decidimos Aguentar Firme porque tem alguma coisa ali muito interessante e bizarra. O último estágio é o da Entrega, é pra quem decidiu passar da metade do livro e já tá, como posso dizer, vivendo o livro, falando dele o dia inteiro, pensando nele, indo tomar café da manhã, indo dormir com ele do lado. Não importa se tem pedaço grande, não importa mais nada, importa que Já Era Estou Envolvida e Nunca Mais Vou Conseguir Largar. É um relacionamento mesmo, um casamento.

Claro que isso não é regra, é só o que aconteceu comigo, é só a minha história com a história do livro. Eu tive pesadelos bem ruins por causa dele, chorei num restaurante por causa dele e também dei muita risada, não vou mentir. O humor do DFW é uma coisa incrível. Você começa rindo muito e depois termina pensando que tá rindo pra não chorar. Montanha-russa de emoções. Ou, eu diria, um carrossel.

Como escrevi no início, poderia falar muitas coisas, mas escolhi falar só isso ou então nunca conseguiria terminar de escrever esse texto. Posso garantir pra vocês que Graça Infinita foi um livro que me modificou tanto como leitora (escrevi mais sobre isso no primeiro Diário de leitura) quanto como pessoa, essa mera mortal que sou. E ainda estou meio desestabilizada pra encarar outras leituras, não vou mentir. Mas vamos seguindo. Qualquer hora leio tudo de novo porque o negócio é infinito mesmo.

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E, agora, três dicas para os futuros leitores desse livro:

Dica 1: tenha dois marcadores de livro, um para a leitura normal e outro para as notas de rodapé porque você vai ter que ir e voltar muitas vezes e é um saco ficar procurando as páginas.

Dica 2: marque tudo que você achar que é interessante, importante, relevante, bonito, triste durante a leitura. Marque do jeito que você quiser, com post-its, anotações, etc, só não deixe de marcar. Você vai querer voltar, você vai querer relembrar e a gente simplesmente vai esquecendo as coisas com o passar das páginas.

Dica 3: DFW inventa e modifica muitas palavras. Ele fala muitos termos técnicos de medicina, esporte, química e outros. Ele também faz frases longas, às vezes sem pontuação. Às vezes tem páginas e páginas sem um paragrafozinho sequer e isso deixa a leitura bem cansativa. Minha sugestão é: se você não entendeu alguma coisa – principalmente se você for ler em inglês – tente recorrer a algum site de tradução ou a dicionário básico. Caso não encontre respostas, tente não consultar nenhum tipo de wikipedia-infinite-jest porque as chances de você ler algum spoiler ou explicação pra alguma coisa que vai se explicar depois são grandes. Então, interprete e siga com a leitura. Aguentar Firme, é o lema.

(Graça Infinita foi traduzido pelo Caetano W. Galindo e publicado pela Companhia das Letras em 2014. O título original é Infinite Jest e foi publicado pela primeira vez em 1996)

Caçando carneiros

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Quando eu comprei esse livro, acho que postei uma foto dizendo que “o primeiro Murakami a gente nunca esquece”. De fato, não esquecerei.

Acho que nunca tinha ficado com tanta curiosidade pra ler um autor como fiquei com o Murakami. Muita gente que eu acompanho nessa internet já tinha lido alguma coisa e eu só ouvia elogios, então… Só me arrependo de não ter começado antes!

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Caçando carneiros conta a história de um homem, não é revelado seu nome, que tem uma vida normal. Trabalha numa agência de publicidade, tem problemas com a ex-mulher, tem um gato, ouve música e etc. Um dia, por causa de uma foto de alguns carneiros que ele utiliza em um de seus trabalhos, um homem misterioso, funcionário de um “chefe” mais misterioso ainda, aparece. O homem estava interessado em encontrar um carneiro especial que estava na foto e o personagem sem nome é designado para isso. Então, com uma nova namorada que tem orelhas muito sedutoras, ele vai viajar pelo Japão em busca desse bicho especial.

Eu sei que a sinopse parece meio doida, gente, só que é bem por aí mesmo. Mas vamos por partes.

A primeira coisa que eu gostei logo de cara foi a escrita do Murakami. O texto é bem calmo, se é que isso faz algum sentido. Parece quando alguém senta do seu lado e conta uma história casualmente. Tipo “ah, e aí, o que você fez nos últimos tempos?”, “então, fui viajar ali e caçar um carneiro que tinha uma estrela nas costas e tal”. Conseguem entender?

E acho que essa sensação só aparece porque, pelo menos durante esse livro, ele não faz uma diferenciação entre as coisas normais que acontecem com o cara das coisas extraordinárias e surreais, que são muitas, aliás. Tudo é contado com o mesmo tom e isso foi o que deixou o livro mais interessante pra mim. Ele não tem super surpresas e, por causa disso, não prepara a gente pra super surpresas. Logo, tudo acaba sendo surpreendente porque não dá pra imaginar o que virá a seguir, sabe como é?

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Mas, com o passar da história, esses elementos surreais vão ficando em segundo plano ou, talvez melhor dizendo, sejam meio que engolidos por aquilo que o livro conta de fato. Acho que depois de ler, só consegui pensar que ele tem uma pegada de viagem espiritual muito grande. Relembrar coisas do passado, encarar a si mesmo, seus medos, refletir sobre a própria vida, nossos hábitos, nossas relações com os outros. Algo em torno disso, mas ainda não consegui formular bem. É uma história simples e complexa ao mesmo tempo. (Desculpa não poder falar mais sobre a história em si, mas é que as coisas são muito interligadas e complexas e não quero dar spoiler!)

Acho que acabei não entendendo tudo completamente, mas foi uma boa leitura e o livro parece ser mais profundo e ter muito mais camadas do que parece. Especialmente porque ele vem de uma cultura bem diferente da nossa, então com certeza tem coisas ali que a gente não consegue captar de primeira.

Li em muitos blogs pessoas discutindo sobre qual seria o melhor livro do Murakami para ler primeiro. Eu mesma perguntei isso pra algumas pessoas. Caçando carneiros nunca esteve entre as indicações, mas, para mim, foi ótimo. Então, fica aqui minha indicação!

E quem já leu, esse ou outro, por favor se manifestem. Sei que muitos de vocês gostam e vai ser bom conversar sobre!

O vermelho em Kumiko, a caçadora de tesouros

Se tem uma coisa que me fascina demais no cinema é a forma como as cores são trabalhadas. Não só sobre como é definida a paleta de cores, como serão os figurinos, cenários, etc… Mas a maneira como uma cor pode ajudar a contar a história. E isso foi uma das primeiras coisas que pensei depois que o filme Kumiko terminou.

Mas tudo bem, vamos por partes. Kumiko, a caçadora de tesouros é um filme de 2014 escrito e dirigido pelos irmãos Nathan e David Zellner. Ele conta a história de Kumiko, uma mulher japonesa que um dia descobre uma fita VHS do filme Fargo. Após assisti-lo, Kumiko passa a acreditar que ele mostra a localização de um tesouro escondido nos EUA e se torna seu objetivo encontrá-lo.

Gostei muito da história, achei bem original. Caçar tesouros, seja ele qual for, não é um tema fora do comum, mas acredito que o filme se tornou interessante muito por causa de Kumiko. Ela é uma personagem interessante. Ao mesmo tempo que é delicada e inocente, não larga mão de sua obsessão e tem uma coragem danada pra enfrentar os problemas que essa caçada coloca na sua frente.

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Pois bem, além da história, me chamou muito atenção como o vermelho é uma cor guia durante todo o filme. Parece meio clichê, o vermelho sempre é utilizado quando se quer destacar algo (claro, quando ela não é já a cor predominante).

Mas, aos meus olhos, o vermelho nesse filme quase que se torna um personagem. A cor, além de fazer o papel de destacar Kumiko do restante dos ambientes, com seu casaco vermelho, meio que condensa elementos importantes da história: Fargo, seu objetivo, o tesouro, mas também sua origem, sua identidade e o destino de sua vida. Aquilo que pode salvá-la, no meio de uma cidade coberta de gelo, e aquilo que pode levá-la

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Acho que as imagens acabaram ficando um pouco pequenas por causa do layout do blog (vocês podem clicar pra ficarem maiores e assistirem ao trailer), mas espero que tenham conseguido entender o que eu descrevi. Apesar de ser chamativo, o vermelho se tornou um pontinho sutil no filme, que vai marcando os passos de Kumiko na jornada e não nos deixa esquecer quem ela é e o que está perseguindo.

E o filme é bonito demais, gente! Acho que já deu pra notar pelos frames, né? E fica na medida certa entre o drama e uma super tensão da aventura de Kumiko. Quando eu crescer quero fazer filmes assim!

Site oficial do filme.

O Livro do Chá

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O Livro do Chá é, provavelmente, um dos melhores livros que li neste ano. Eu o comprei por causa do título e porque vi que era de um autor japonês, então pensei, nada melhor do que um japonês pra falar de chá e dos rituais que envolvem todo o processo. Mas confesso que não sabia bem do que se tratava.

E então, minha gente, descobri que o livro saiu melhor do que a encomenda. Por que? Bom, ele não fala exatamente sobre chás, mas sobre a cerimônia do chá, que é um ritual importantíssimo na cultura japonesa. Mas ele também não fala só sobre a cerimônia do chá.

Kakuzo Okakura escreveu este livro especialmente para nós, ocidentais. Através da cerimônia do chá, ele nos conta um pouco sobre a história do Japão, sobre sua cultura e sobre como o chá influenciou a história do país. Mas tudo isso pensado para nos aproximar um pouco da cultura oriental e afastar certos esteriótipos e visões deturpadas que na época o Ocidente tinha sobre eles e que acho que continuamos tendo.

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O livro foi publicado em 1906 e, anos antes, o Japão ainda era muito fechado para o mundo. Então, na época, com a abertura da Universidade de Tóquio, algumas pessoas começaram a ser educadas na língua inglesa. Okakura foi um desses e acabou escrevendo esta obra que é considerada um dos mais importantes livros sobre a cultura japonesa escrito em inglês.

A vontade do autor de contar ao mundo sobre o “chaísmo”, termo que ele mesmo usa, parte de várias razões. Mas, para mim, uma ficou especialmente marcante:

O ocidental comum se habituou a considerar o Japão um país bárbaro, enquanto este cultivou as suaves artes da paz, mas o classifica como civilizado desde que começou a perpetrar carnificina em massa nos campos de batalha da Manchúria.”

Ou seja, para os ocidentais, o Japão ficou conhecido por causa de suas vitórias nas batalhas (não conheço os detalhes das guerras que aconteciam naquela época, gente!). Em outra parte, Okakura diz que o Código do Samurai é mais conhecido do que o “chaísmo”.

Além disso, o autor acha que havia pouca compreensão e respeito por parte dos Ocidentais sobre os costumes do Oriente de forma geral. E sinceramente acho que isso acontece até hoje. Temos uma tendência em classificar aquilo que temos e vivemos como o que é “normal” e tudo que foge dessa linha, bom, são outras coisas aí meio diferentes que inventaram um dia.

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E é aí que entra a importância da cerimônia do chá. O “chaísmo” reúne estética e religião (o taoísmo e o zen) e meio que condensa um certo espírito oriental, uma visão do mundo ou uma filosofia de vida.

A cerimônia do chá é um culto em que pessoas se reúnem no aposento do chá (sukyia). Este aposento, um cômodo bem pequeno) é decorado e preparado pelo mestre do chá nos mínimos detalhes. O mestre prepara a bebida (chá matcha, vocês conhecem? Essa forma de preparação mudou muito com os anos), que é bem diferente do que estamos acostumados, e passa para os participantes. Tem todo um procedimento e utensílios para preparar o chá e uma maneira específica de segurar a cumbuca e de beber.

Foi só depois de ler as explicações detalhadas sobre a cerimônia que consegui ter um pequeno entendimento sobre como o ritual pode condensar o espírito oriental. A coisa está em pequenos detalhes e em como você pensa esses detalhes. Para começar, qualquer pessoa pode participar de uma cerimônia do chá. A porta do aposento é bem pequenininha, todos tem que entrar se engatinhando, independente de quem você é, você irá se curvar no chão. A decoração do aposento é feita pensando na pureza e perfeição de uma experiência estética. Por exemplo, não se deve repetir cores. Se você coloca uma flor de cor x, não deve haver mais nada dessa cor no aposento para não causar um desequilíbrio.

Vocês conseguem entender? São detalhes, mas que tem a ver como um certo jeito de ver o mundo e de se relacionar com ele. Tem todo um cuidado na preparação, na criação de um clima, que exige uma sensibilidade e um estado mental específico. Além, claro, de uma ligação com os pensamentos do zen, mas que, bom, fica pra outra hora.

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Foi enorme o texto, mas isso significa que eu gostei muito do livro e que ele dá pano pra manga! Foi uma introdução à cultura japonesa bem completa, mas não sou tão boa em resumos e tem coisas que não podem ser resumidas assim tão facilmente.

Não sei, acho que já disse isso por aqui, mas tenho cada vez mais a impressão de que temos muito a aprender com a filosofia de vida oriental. É bom sair da caixinha e perceber que tem outros jeitos de olhar para o mundo. E acho que isso foi o que mais aprendi com esse livro.

Essa minha edição de O Livro do Chá tem 144 páginas, é de 2008, da editora Estação Liberdade (que, inclusive, tem uma coleção gigantesca de livros escritos por autores japoneses!).