O menino que queria saber

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Miguel era uma menino que queria saber muitas coisas. A impressão que ele tinha é que todo mundo sabia as respostas, mas nem sempre queriam responder suas perguntas. Seus pais, a professora, o gato, o passarinho… todos sabiam tudo, menos ele. Até que Miguel um dia ficou sabendo da Máquina-que-sabe-tudo e resolveu ir atrás dela, que parecia ser a única solução para os seus problemas.

Spoiler inofensivo número 1: nós não sabemos exatamente o que ele quer saber.

Spoiler inofensivo número 2: o caminho pra chegar até a Máquina é muito mais interessante do que todo o resto.

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Só pra variar, esse é um daqueles livros infantis que servem super bem pra nós adultos.

Quem nunca esteve com uma criança que faz perguntas sobre tudo o tempo todo? E quem nunca cresceu e continua com vontade de fazer perguntas mas só que agora tem vergonha? Pra essa pergunta posso responder: euzinha.

Esse livro, então, me fez pensar em duas coisas.

A primeira é algo que eu já falei aqui no blog nesse outro post sobre como parece que com o tempo vamos perdendo essa curiosidade inocente pelas coisas do mundo. Seja por falta de tempo, de paciência, de interesse…

A segunda coisa é que, por causa disso, acho que acabamos querendo as respostas rápido demais e talvez mastigadas demais porque, novamente, isso poupa tempo, paciência e interesse por algo que talvez não interesse tanto naquela hora. E aí, vira um ciclo. Não é fácil colocar na cabeça que o processo e as experiências do meio do caminho são mais importantes do que o resultado das coisas.

Mas Miguel é um menino que não tem medo de perguntar e que não tem medo de ir atrás das respostas e se aventurar nesses caminhos de insegurança. Quando ele ficou sabendo da existência da Máquina, descobriu que ela ficava na cidade grande. Só que pra chegar até lá, ele teria que atravessar toda a floresta, habitada por feiticeiras, monstros e animais ferozes.

Bom, atravessar a floresta não ia ser tão fácil assim.

O menino sentou-se numa pedra à beira do caminho para resolver desistir de tudo e voltar para casa sem saber, ou continuar e enfrentar os perigos para encontrar a tal máquina.”

E aí, vocês se arriscariam?

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Bom, pra quem ainda não sabe, esse post é resultado da parceria do blog com as Editoras Biruta e Gaivota, que são dedicadas à literatura infantil e juvenil, além de terem publicações sobre educação voltada pra professores. Quem me acompanha por aqui, já sabe que eu rodeio essas áreas há muito tempo e fico feliz de ser parceira de uma editora que trabalha exclusivamente com esse público.

Os livros são só amor e fiquei perdidinha pra escolher qual eu queria! Mas só pela sinopse, eu já senti que esse teria muito a ver com várias questões que já discuti por aqui. E estava certa.

O Menino que queria saber foi escrito por Marion Villas Boas, com ilustrações de Marta Strauch, e lançado em 2011 pela Biruta. No link do site tem como vocês verem o livro por dentro! Passem por lá!

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As alegrias de 2015

Chegou aquela hora do último texto que vou escrever por aqui relembrando as coisas mais legais que li/assisti em 2015. Como já comentei, este ano foi meio diferente, li muito e assisti a bem poucos filmes. Na sala de cinema, então, posso contar nos dedos as vezes em que fui. Mas não estou reclamando, tá tudo muito bem, obrigada.

Começando com a melhor coisa que talvez tenha acontecido comigo: eu finalmente terminei o mestrado no primeiro semestre. Acho até que esse volume de leituras foi resultado dessa liberdade que de repente apareceu pra mim. Finalmente tive tempo pra ler aquele monte de livros que eu comprei e estavam ali parados. Mentira, comprei um monte no caminho! Da onde vem esse descontrole, gente?

A segunda melhor coisa desse ano foi que eu e mais meus amigos fizemos um filme. Foram meses e meses de trabalho e contei sobre o processo aqui no blog, pra quem se interessar em saber como foi.

E agora, vamos à lista! Acho que vale lembrar que sim, muitos outros filmes e livros foram legais, mas tem sempre aqueles que aparecem na nossa cabeça primeiro e foram esses que escolhi. Claro, com algum padrão porque não consigo fugir disso, hehe. Então, tem 6 de cada.

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Filmes

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Amores expressos e Amor à flor da pele: Apesar de só ter resenha do primeiro filme aqui no blog, os dois foram boas descobertas desse ano. Wong Kar-Wai é um diretor que fico triste de não ter conhecido antes porque não tem absolutamente nada que eu não tenha gostado nos filmes dele. As histórias são boas, os personagens melhores ainda e a trilha totalmente maravilhosa. Junto com esses filmes, tem mais um, componho mais ou menos uma triologia. Certamente vou querer escrever algo depois que assistir aos três. Enquanto isso, se não conhecem, vão correndo procurar!

Mommy: Não escrevi sobre esse filme aqui no blog e não sei o motivo, porque foi ótimo. Foi o primeiro que assisti em 2015 lá no Cine Santa em Santa Teresa, no Rio. Foi um filme bem diferente, falado num sotaque quebequense que eu não conhecia, em uma cidade diferente, durante ótimas férias. Então só me traz boas recordações. Com certeza merece um post à parte, mas aqui vai o trailer se você não conhece!

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Que horas ela volta?: Imagino que muitos de vocês já tenham ouvido falar ou já assistiram a esse filme. Eu juro que não queria ver porque eu não vou com a cara da Regina Casé e jurava que era um filme de comédia. Puro preconceito, reconheço. Mas então só ouvi elogios e resolvi dar uma chance. Foi uma super surpresa porque o filme é bom demais, Regina Casé foi espetacular e a Jéssica mais ainda. Merece ser assistido ainda mais porque levanta questões muito importantes. Com certeza esse filme vai aparecer aqui de novo com mais calma, aguardem.

Precisamos falar sobre o Kevin: Eita que eu já rasguei ceda demais pra esse filme no blog. E com toda razão! Estávamos esperando muito pra assistir e superou as expectativas.

Pierrot le fou: Se você já conhece o blog há um tempinho, deve saber que gosto muitos dos filmes do Godard e que minha deusa é a Anna Karina. Pierrot le fou é um dos meus filmes preferidos da vida e já assisti umas 6 vezes. Mas esse ano tive a oportunidade de assisti-lo no cinema, em película, grandão, lindo do jeito que ele é, na Retrospectiva Jean-Luc Cinema Godard que aconteceu aqui no Brasil. Eu nunca pensei que assistiria a um filme dele no cinema, ainda mais Pierrot le fou! Foi de chorar, um dos clímax desse ano!

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Livros

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Graça Infinita: Eu acho, gente, que não tenho mais nada pra falar sobre esse livro. Ou melhor, não quero começar a falar de novo. Então, apenas leia o que já escrevi sobre que vocês vão entender meus motivos.

O Livro do Travesseiro: Antes do Graça Infinita tomar o posto de melhor livro do ano, O Livro do Travesseiro era o escolhido. Foi um presente surpresa e eu nunca tinha falado dele antes, mas acabou se tornando um dos meus preferidos. Escrevi um looongo post sobre ele aqui no blog.

O Livro do Chá: Seguindo a linha oriental, chás não foi exatamente o assunto que eu mais falei sobre aqui no blog em 2015, mas eu continuo gostando muito deles. E esse livro é bem interessante pra quem quer saber um pouco sobre a história dos chás e sobre a história do Japão e da China. Também rolou texto sobre ele por aqui.

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O Livro das Semelhanças: Pois é, eis que esse ano foi de descobertas na poesia pra mim. Sempre fui travada pra ler, mas alguma coisa mudou. Provavelmente o Rabo de Baleia me ajudou bastante, mas O Livro das Semelhanças realmente me pegou. Acho difícil de explicar essas coisas, simplesmente o santo bateu, alguma coisa me tocou ali. Coloquei um poesia aqui no blog, depois leiam lá se quiserem conhecer!

Vincent: Esse ainda não deu as caras aqui no blog, mas é porque estou guardando pra fazer um vídeo com as Três razões para ler. Vincent é uma biografia ilustrada em quadrinhos da vida do Van Gogh. Primeiro: que história de vida a dele, gente, sério. É emocionante e muito triste. E o trabalho da ilustradora é incrível. Vale a pena demais dar uma folheada. Quase que dá pra ler de uma vez só se vocês sentarem na livraria. Mas eu recomendo levá-lo pra casa, claro.

Rua de mão única / Infância berlinense 1900: Esse livro (que na verdade são 2 dentro do mesmo) foi escrito pelo Walter Benjamin, talvez um dos filósofos mais importantes dos últimos tempos. Li esse logo depois de O Livro do Travesseiro porque a estrutura é parecida. Esse é um livro de fragmentos, pensamentos, observações, listas que Benjamin fez sobre os mais diversos assuntos, sua vida pessoal, sua infância, política, filosofia e por aí vai. É de uma riqueza sem fim. Ele te faz pensar sobre tudo isso, além de ter uma capacidade de descrição e uma imaginação incrível. Não foi o livro mais fácil que li, mas vale cada palavrinha.

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Extras

A vida não é só feita de filmes e livros, também é feita de: séries.

Eu prometi que vou escrever sobre Bojack the Horseman e vou cumprir, mas simplesmente não posso deixar de falar aqui de novo que ela entrou pro meu rol de séries favoritas-por-favor-não-acabe-nunca! A trilha da série é meu novo toque de celular pra vocês terem ideia do nível da coisa.

Ainda sobre séries, tenho que citar Orange is the new black e Master of None, que foram ótimas descobertas desse ano. Netflix chegou pra dominar, né? Já percebemos.

A vida também é feita de lugares e pessoas, não é mesmo? Esse fui pra SP duas vezes e pude encontrar pessoas muito queridas que conheci por causa do blog e foi bom demais da conta. Tão triste que isso passa tão rápido… Ingrid, Ferds e Isa, muito obrigada pela receptividade e pelo papo, de verdade. Não vejo a hora de voltar!

E muito obrigada a todos vocês que visitam esse blog! Apesar de ter ficado afastada nos últimos tempos, vocês continuam vindo aqui e isso só me deixa feliz.

Por hoje é só!

Graça Infinita – Diário de leitura #fim

No primeiro post do Diário de leitura de Graça Infinita, em julho, eu estava na página 143. No dia 19 desse mês, exatamente às 21h da noite, eu terminei de ler o livro. Desde então estou assim: por onde começar a escrever sobre ele?

Poderia dizer que é um dos melhores livros que já li na vida? Poderia. Poderia dizer que ri e chorei enquanto lia? Poderia. Que David Foster Wallace tinha uma mente brilhante? Que ele conseguiu prever algumas coisas na década de 90 que estão acontecendo hoje? Que os personagens são excêntrico porém muito reais? Poderia. Poderia falar um monte de coisas. Então resolvi que vou mais fazer um registro da minha experiência de ter lido esse livro do que uma resenha em si (até porque eu não conseguiria fazer uma resenha).

Vou começar dizendo que acabei de acabar de ler, mas já estou pronta pra ler de novo. Na verdade, a única coisa que eu quis fazer quando terminei, foi começar novamente. É irresistível. Já relemos algumas coisas (Dudu também terminou a leitura), mas não vou encarar tudo de novo agora. Acho que vou marcar uma data pra reler.

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É engraçado porque geralmente nos interessamos por um livro por causa de sua história ou do tema ou do autor… mas eu sabia muito pouco sobre o Graça e não lembro direito os motivos pelos quais resolvi comprá-lo. E quando ele chegou em casa e meu namorado começou a ler ele me disse: não leia a sinopse que está na contracapa. E não li. Então foi tudo meio às cegas. Por causa disso, estou meio travada pra escrever aqui. Não gostaria de dar mais informações do que eu tinha quando conheci o livro, seria meio contraditório, sabe como é?

Mas enfim, como contei no primeiro Diário de leitura, fiquei perdida no começo. A história não é contada de maneira linear, não há apresentações muito formais dos personagens. Tem situações e episódios um pouco surreais deslocados dentro dos capítulos, que aparecem e somem sem explicação. Tem quase 200 páginas de notas de rodapé. E tem muitos, mas muitos personagens.

Agora, depois de conhecer toda a história, posso contar pra vocês um pouquinho com mais segurança, mas é basicamente o que eu sabia antes de ler. Tem dois grandes núcleos de personagens no livro. O primeiro envolve a família Incandenza (James e Avril e os filhos Hal, Mario e Orin) e a Academia de Tênis Enfield, onde Hal estuda e treina tênis, junto com mais um monte de outras crianças e adolescentes. E o segundo núcleo envolve a Casa Ennet, um centro de reabilitação para usuários de drogas. O que tinha me deixado mais curiosa pra ler no início foi o fato de James Incandenza ser um cineasta que tinha feito um filme assim muito espetacular capaz de mudar a vida das pessoas. Como tudo iria se encaixar no livro, ainda não sabia, mas eram muitas páginas e certamente uma hora tudo iria se explicar. E isso é só o que tenho pra contar porque, vou ser sincera, a história que envolve toda essa gente é boa, mas o livro não é só sobre isso.

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David Foster Wallace conseguiu descrever as pessoas e a sociedade de um jeito que eu nunca vi em outro lugar. É degradação humana atrás de degradação humana, de todos os tipos e em vários níveis. É um livro sobre como viver e morrer, sobre o relacionamento humano (principalmente o familiar), sobre Entretenimentos, sobre a mídia, sobre vícios e obsessões. E não importa se você não é um adolescente campeão no tênis ou um traficante ou um assassino ou um drogado em reabilitação ou uma locutora misteriosa de um programa de rádio, de uma maneira ou de outra você vai acabar se identificando com eles. Por mais horrorosa que seja a história que DFW escreve sobre esses personagens estranhos, ele simplesmente arrumou um jeito de (nessa diferença absurda entre nós e eles) encontrar coisas comuns, problemas, atitudes, decisões de vida que vamos enfrentar ou que já enfrentamos um dia.

Acho que foi uma das coisas que mais me deixou abalada pelo livro. Tá todo mundo fodido e ninguém escapa das fragilidades da vida. Viver é difícil, conviver também, perceber os problemas e perceber que tem gente que não consegue resolvê-los ou que tem gente que não tem outra opção senão encarar aquilo tudo ou que sabemos como tudo poderia ser melhor, mas simplesmente não temos coragem pra mudar… tá tudo aí nessa história. É difícil ouvir verdades e é difícil notar que somos partes de um sistema que, muitas vezes, não quer deixar a gente sair dele.

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Pra mim, o Graça teve 3 estágios. Primeiro, a gente começa a ler e fala ah, que merda é essa, não tô entendo pra onde essa história vai. Quem é essa pessoa? O que é essa sigla? Me dá uma explicaçãozinha! Aí, no segundo estágio, a gente passa a conhecer os personagens e algumas questões centrais e tudo começa a se ligar. Nos chateamos com algumas partes meio longas que continuam sem explicação, mas decidimos Aguentar Firme porque tem alguma coisa ali muito interessante e bizarra. O último estágio é o da Entrega, é pra quem decidiu passar da metade do livro e já tá, como posso dizer, vivendo o livro, falando dele o dia inteiro, pensando nele, indo tomar café da manhã, indo dormir com ele do lado. Não importa se tem pedaço grande, não importa mais nada, importa que Já Era Estou Envolvida e Nunca Mais Vou Conseguir Largar. É um relacionamento mesmo, um casamento.

Claro que isso não é regra, é só o que aconteceu comigo, é só a minha história com a história do livro. Eu tive pesadelos bem ruins por causa dele, chorei num restaurante por causa dele e também dei muita risada, não vou mentir. O humor do DFW é uma coisa incrível. Você começa rindo muito e depois termina pensando que tá rindo pra não chorar. Montanha-russa de emoções. Ou, eu diria, um carrossel.

Como escrevi no início, poderia falar muitas coisas, mas escolhi falar só isso ou então nunca conseguiria terminar de escrever esse texto. Posso garantir pra vocês que Graça Infinita foi um livro que me modificou tanto como leitora (escrevi mais sobre isso no primeiro Diário de leitura) quanto como pessoa, essa mera mortal que sou. E ainda estou meio desestabilizada pra encarar outras leituras, não vou mentir. Mas vamos seguindo. Qualquer hora leio tudo de novo porque o negócio é infinito mesmo.

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E, agora, três dicas para os futuros leitores desse livro:

Dica 1: tenha dois marcadores de livro, um para a leitura normal e outro para as notas de rodapé porque você vai ter que ir e voltar muitas vezes e é um saco ficar procurando as páginas.

Dica 2: marque tudo que você achar que é interessante, importante, relevante, bonito, triste durante a leitura. Marque do jeito que você quiser, com post-its, anotações, etc, só não deixe de marcar. Você vai querer voltar, você vai querer relembrar e a gente simplesmente vai esquecendo as coisas com o passar das páginas.

Dica 3: DFW inventa e modifica muitas palavras. Ele fala muitos termos técnicos de medicina, esporte, química e outros. Ele também faz frases longas, às vezes sem pontuação. Às vezes tem páginas e páginas sem um paragrafozinho sequer e isso deixa a leitura bem cansativa. Minha sugestão é: se você não entendeu alguma coisa – principalmente se você for ler em inglês – tente recorrer a algum site de tradução ou a dicionário básico. Caso não encontre respostas, tente não consultar nenhum tipo de wikipedia-infinite-jest porque as chances de você ler algum spoiler ou explicação pra alguma coisa que vai se explicar depois são grandes. Então, interprete e siga com a leitura. Aguentar Firme, é o lema.

(Graça Infinita foi traduzido pelo Caetano W. Galindo e publicado pela Companhia das Letras em 2014. O título original é Infinite Jest e foi publicado pela primeira vez em 1996)

Caçando carneiros

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Quando eu comprei esse livro, acho que postei uma foto dizendo que “o primeiro Murakami a gente nunca esquece”. De fato, não esquecerei.

Acho que nunca tinha ficado com tanta curiosidade pra ler um autor como fiquei com o Murakami. Muita gente que eu acompanho nessa internet já tinha lido alguma coisa e eu só ouvia elogios, então… Só me arrependo de não ter começado antes!

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Caçando carneiros conta a história de um homem, não é revelado seu nome, que tem uma vida normal. Trabalha numa agência de publicidade, tem problemas com a ex-mulher, tem um gato, ouve música e etc. Um dia, por causa de uma foto de alguns carneiros que ele utiliza em um de seus trabalhos, um homem misterioso, funcionário de um “chefe” mais misterioso ainda, aparece. O homem estava interessado em encontrar um carneiro especial que estava na foto e o personagem sem nome é designado para isso. Então, com uma nova namorada que tem orelhas muito sedutoras, ele vai viajar pelo Japão em busca desse bicho especial.

Eu sei que a sinopse parece meio doida, gente, só que é bem por aí mesmo. Mas vamos por partes.

A primeira coisa que eu gostei logo de cara foi a escrita do Murakami. O texto é bem calmo, se é que isso faz algum sentido. Parece quando alguém senta do seu lado e conta uma história casualmente. Tipo “ah, e aí, o que você fez nos últimos tempos?”, “então, fui viajar ali e caçar um carneiro que tinha uma estrela nas costas e tal”. Conseguem entender?

E acho que essa sensação só aparece porque, pelo menos durante esse livro, ele não faz uma diferenciação entre as coisas normais que acontecem com o cara das coisas extraordinárias e surreais, que são muitas, aliás. Tudo é contado com o mesmo tom e isso foi o que deixou o livro mais interessante pra mim. Ele não tem super surpresas e, por causa disso, não prepara a gente pra super surpresas. Logo, tudo acaba sendo surpreendente porque não dá pra imaginar o que virá a seguir, sabe como é?

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Mas, com o passar da história, esses elementos surreais vão ficando em segundo plano ou, talvez melhor dizendo, sejam meio que engolidos por aquilo que o livro conta de fato. Acho que depois de ler, só consegui pensar que ele tem uma pegada de viagem espiritual muito grande. Relembrar coisas do passado, encarar a si mesmo, seus medos, refletir sobre a própria vida, nossos hábitos, nossas relações com os outros. Algo em torno disso, mas ainda não consegui formular bem. É uma história simples e complexa ao mesmo tempo. (Desculpa não poder falar mais sobre a história em si, mas é que as coisas são muito interligadas e complexas e não quero dar spoiler!)

Acho que acabei não entendendo tudo completamente, mas foi uma boa leitura e o livro parece ser mais profundo e ter muito mais camadas do que parece. Especialmente porque ele vem de uma cultura bem diferente da nossa, então com certeza tem coisas ali que a gente não consegue captar de primeira.

Li em muitos blogs pessoas discutindo sobre qual seria o melhor livro do Murakami para ler primeiro. Eu mesma perguntei isso pra algumas pessoas. Caçando carneiros nunca esteve entre as indicações, mas, para mim, foi ótimo. Então, fica aqui minha indicação!

E quem já leu, esse ou outro, por favor se manifestem. Sei que muitos de vocês gostam e vai ser bom conversar sobre!

Sobre descobrir uma (velha) nova paixão

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Olhando pra minha estante e pensando nas últimas trocas/compras de livros que fiz, notei que alguma coisa mudou por aqui. Tanto em mim, quanto na minha estante, que já tá sem espaço de tudo!

Eu já falei sobre esse assunto, mas o número de livros de literatura infantil/infantojuvenil cresceu de uma hora pra outra – os quadrinhos também passaram a ser um interesse mais recente – e esses tem sido os livros que mais procuro atualmente. Não me entendam errado, eu gosto muito de ler e isso quer dizer, bem, todos os livros que eu gosto de ler. Isso agora inclui também os livros infantis.

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Um professor francês, que eu estudei bastante nos últimos tempos, chamado Alain Bergala, disse em seu livro A Hipótese-Cinema que uma boa maneira de as crianças assistirem a filmes diferentes – daqueles que passam na TV e no circuito comercial – , que elas normalmente não assistiriam, seria dado a elas o acesso a esses filmes. Uma ideia para isso seria ter uma filmoteca na escola (e acho que em casa também funcionaria). Então, tendo acesso e contato frequente com aquele montão de filmes diferentes e desconhecidos, a criança poderia ir explorando da maneira que quisesse e ir descobrindo coisas novas por si própria.

E, então, lembrei que eu me vi numa situação parecida nas férias de janeiro desse ano. Fiquei hospedada na casa de um casal de professores amigos em Santa Teresa, no Rio, por duas semanas. Quando cheguei na casa, uma das primeiras coisas que vi foi a estante da Fabi. Uma estante repleta de livros infantis do topo até o chão.

Por duas semanas eu dormi e acordei ali do lado daquela estante e todos os dias pegava livros aleatórios pra ler. Deve ter sido de 15 a 20 livros no total (e eu teria lido mais, se não tivesse escrevendo minha dissertação naqueles dias). Tenho quase certeza de que essa foi a razão que me faz, agora, só querer ir na sessão infantil nas livrarias!

Eu não só fiquei curiosa para ler, como também, de repente, comecei a me lembrar de vários livros que eu gostava quando era criança. E tem sido uma experiência muito boa lê-los de novo.

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De repente, isso começou a apontar alguns caminhos inesperados pra mim. Comecei a descobrir coisas que eu gostaria de fazer, como hobby ou quem sabe como trabalho. Descobri alguns cursos interessantes,  eventos e lugares legais para ir. Descobri todo um mundo novo relacionado à literatura/produção editorial e editoras independentes que se tornaram fascinantes pra mim. Mesmo que tudo isso não dê em nada, a sensação é boa demais.

Isso me fez pensar em muitas coisas. A importância do acesso e do “se jogar” despretensiosamente em algo desconhecido. Primeiro, eu tenho certeza de que se eu não estivesse ido de férias praquela casa e passado horas e horas ao lado daquela estante, isso tudo não teria acontecido. Foi porque eu estava ali olhando pra eles e eles pra mim que tudo mudou. Claro que tem que ter um mínima empatia e curiosidade antes, mas… os livros infantis nunca foram objeto de interesse antes. Eles eram apenas uma boa memória e aquilo que te faz dizer: ah, que bonitinho!

Por outro lado, sempre penso que temos uma tendência muito grande em fazer as coisas já esperando algo em troca, com metas e objetivos que tem que ser alcançados desde já. E acho que isso acaba causando aquela ansiedade de ter que decidir logo e fazer logo alguma coisa (que eu já falei um pouco aqui no blog). Então, quando falo em se-jogar-despretensiosamente, tô falando disso, de aproveitar o momento, de se dedicar a uma coisa que te faz bem e que não vai te dar nada em troca, a não ser aquela sensação boa. E se por acaso render alguns frutos, bom, que sejam bons!

Mais do que boas histórias pra ler, é isso que os livros infantis me ensinaram nos últimos tempos.

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Para os curiosos de plantão, esses são os livros que aparecem nas fotos:

Quem tem medo de escuro? (Fanny Joly, Editora Scipione)

A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken (Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, Companhia das Letras)

Inês (Roger Mello, Companhia das Letrinhas)

Malala, a menina que queria ir para a escola (Adriana Carranca, Companhia das Letrinhas)

Ei! Tem alguém aí? (Jostein Gaarder, Companhia das Letrinhas)

Cantiga (Blexbolex, Cosac Naify)

O menino que mordeu Picasso (Antony Penrose , Cosac Naify)

A parte que falta (Shel Silverstein, Cosac Naify)

Bichos que existem & bichos que não existem (Arthur Nestrovski, Cosac Naify)

Três razões para ler Minhas imagens do Japão

Se você gosta de literatura infantil, ilustração e cultura japonesa, provavelmente esse livro também é pra você.

Minhas imagens do Japão é um livro escrito por Etsuko Watanabe. Nele, a personagem Yumi, uma garotinha de sete anos, apresenta pra nós o Japão e como é viver lá: sua casa, a culinária, o dia-a-dia na escola, as datas comemorativas, o idioma, etc. Tudo isso ilustrado pela própria autora.

Eu me apaixonei pelo livro no momento em que o abri. Primeiro porque gosto muito de ilustrações de casas desde criança, principalmente as bastante detalhadas como são as desse livro. Segundo porque, junto com os desenhos, vem uma descrição do que é aquele ambiente, o que tem nele, pra que servem as coisas. E de quebra, a gente ainda aprende um pouco de japonês! A edição que eu tenho é de 2007, da Cosac Naify.

Assim que terminei a leitura fiquei morrendo de vontade de ler mais livros do mesmo estilo em que a autora fizesse a mesma viagem na cultura de outros países. Infelizmente, eles não existem…

Como já comentei várias vezes por aqui, sou apaixonada pelo universo infantil e tenho começado uma coleção de livros infantojuvenis. Eles são lindos, gostosos de ler e de ver e achei que seria uma boa ideia compartilhar com vocês junto com minhas outras leituras.

(Eu sempre quis fazer vídeos sobre livros e filmes, mas acho que não tem a ver comigo sentar e falar e falar e falar. Estava procurando saídas criativas pra isso e me inspirei na série Three Reasons que a Criterion Collection faz com os filmes. Acho que assim o vídeo e o post podem existir de forma independente e se complementarem. Espero que gostem!)