Em cartaz #34: Hakuho Hirano

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Desde que li O Livro do Travesseiro, minha curiosidade em relação à cultura japonesa só aumentou. Sabe quando você entra numa onda de ficar pesquisando tudo sobre um assunto freneticamente? Estou nessa fase.

Num desses meus momentos de imersão, encontrei essas pinturas da artista Hakuho Hirano. Não há muitas informações sobre sua vida, mas ela nasceu em Kyoto, em 1879.

Esse tipo de pintura é conhecido como bijin-ga, que parece ser uma palavra no Japão para descrever gravuras de mulheres bonitas. Os desenhos são feitos sobre placas de madeira com uma técnica parecida com a xilogravura, conhecida como ukiyo-e, que significa “retratos do mundo flutuante”. Bonito, né? Geralmente eram retratados momentos da vida cotidiana durante o período Edo (que foi quando o ukiyo-e surgiu), envolvendo as mulheres, lutadores de sumô, artistas performáticos. Com o tempo a técnica continuou a ser usada e os temas foram mudando também.

Essas pinturas da Hakuho Hirano são da década de 1930 e ela parecia gostar de desenhar as mulheres, principalmente de costas ou com apenas uma parte do rosto a mostra. Foram exatamente as que eu mais gostei, justamente porque não vemos o rosto delas. Achei que isso cria uma aura de mistério envolta da pintura, uma situação meio de voyeur, como se as mulheres das gravuras não soubessem que estão sendo observadas.

Não existem muitos trabalhos da Hakuho Hirano divulgados, mas existem muitos outros artistas de bijin-ga e tantas outras pinturas bonitas para quem quiser ver mais. Essas aí ganharam meu coração.

O Livro do Travesseiro

Da primavera, o amanhecer. É quando palmo a palmo vão se definindo as esmaecidas linhas das montanhas e no céu arroxeado tremulam delicadas nuvens.”

Nem precisei terminar de ler essas primeiras linhas de O Livro do Travesseiro para ter certeza de que seria maravilhoso. Ele foi escrito por Sei Shônagon, uma dama que serviu na corte de Teishi, Consorte do imperador Ichijô, no período Heian no Japão (794-1192). É algo entre um diário, coletânea de ensaios, percepções sobre o mundo, listas, opiniões sobre os mais diversos assuntos e fofocas da corte. O livro é considerado uma das obras mais importantes e representativas da literatura clássica japonesa. E com toda razão. Acho que a Sei deve estar muito orgulhosa em algum lugar por aí.

Existem muitos mistérios envolvendo a obra. A começar pelo próprio nome da autora, que não é esse exatamente, embora não tenham descoberto qual seja. As interpretações sobre o título também são as mais diversas e não há um consenso sobre o real significado dele. A forma e razão pelas quais ele foi escrito e publicado também são misteriosas. Mas esses são detalhes que, inclusive, dão um certo charme pra coisa toda. Toda a essa parte do contexto e da pesquisa que os tradutores fizeram estão no início do livro, mas eu aconselho ler essas informações por último porque elas farão mais sentido depois.

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De qualquer jeito, essas questões acabam ficando em segundo plano e também não foi por isso que me apaixonei pelo livro. Acima de tudo, o que mais me impressionou foi como Sei consegue descrever coisas, as vezes, tão banais de forma delicada, e a sensibilidade que ela tinha em conseguir enxergar a beleza das coisas e conseguir reuni-las nessas listas.

Coisas que nos alegram. Ler a primeira parte de uma narrativa ainda desconhecida, ficar muito fascinada e depois encontrar a continuação. No entanto, pode haver também decepções. Juntar os pedaços de uma carta que alguém rasgou e abandonou, e conseguir ler uma sequencia de várias linhas; ter um sonho indecifrável que esmaga o coração de pavor e receber a interpretação de não se tratar de nada especial causam muita alegria (…).”

Grande parte do livro segue esse padrão de escrita que se parece com listas ou anotações meio livres, numa mistura dos gêneros soshi e zuihitsu (literalmente “ao correr do pincel”), que é exatamente uma forma de escrever livre, de acordo com as ideias que surgem no momento, ao correr do pincel mesmo, como diz o termo. Tem uma vasta explicação sobre esses gêneros contextualizados na literatura japonesa no início do livro e foi realmente um mundo novo que se abriu pra mim. Se eu já achava que sabia pouco sobre a história do lado oriental do mundo, agora tenho certeza de que não sei praticamente nada.

Para quem gosta de fazer listas, e sei que muita gente gosta, esse livro é um prato cheio porque Sei é uma mestra nisso. Tem listas sobre tudo o que vocês imaginarem: Coisas que são melhores quando grandes, Coisas que devem ser curtas, Coisas que são adequadas a residências de nobres, Quanto a santuários, Quanto a colinas, Quando a monges, Coisas que causam apreensão, Coisas que parecem penosas… e por aí vai.

O que acho mais bonito nisso tudo é que não são simplesmente listas, na minha percepção. Se ela consegue fazê-las é porque ela deu atenção a determinados aspectos daquele tema. Não sei se é o tipo de coisa que alguém senta e escreve displicentemente. Através da própria escrita dá pra ter a sensação de que houve um tempo de observação, de experiência, de envolvimento com aquilo. Está aí um novo tipo de listas que deveríamos tentar fazer.

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Além de toda a sensibilidade perceptiva que ela tinha, e apesar de ser uma dama muito educada e de certo prestígio na corte, Sei tinha uma língua bem afiada e não deixava de criticar quem achava que merecia ser criticado, de alfinetar as pessoas e contar os malfeitos que aconteciam com os outros. Normal, né? Tem certas coisas que não mudam, seja nos anos 900 no Japão, seja hoje aqui no Brasil.

Quem se irrita com alguém que fala dos outros é que é inconcebível. Como podemos ficar sem falar dos outros? Haverá coisa melhor do que falar mal dos outros, evitando referir-se a si próprio? Mas isso parece condenável, e é também constrangedor quando a própria pessoa ouve o comentário e se enche de ódio. Em relação às pessoas de nosso relacionamento, nós tudo relevamos e nos calamos. Se não fosse por isso, também faríamos comentários e riríamos delas.”

Com uma pitada de humor, Sei conta várias pisadas de bola das damas e dos homens da corte, e também as próprias. No meio disso tudo vamos descobrindo a dinâmica da sociedade naquela época, a relação entre homens e mulheres, entre damas e serviçais, entre marido e mulher e, além disso, a relação das pessoas com a natureza, com as estações do ano, com a literatura, com a poesia, com a religião, com o tempo. É um livro riquíssimo para termos contato com essa forma de viver e de pensar tão distantes de nós.

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Fiquei muito triste quando o livro acabou. Mesmo. Já estava me sentido amiga da Sei e não queria que acabasse. Mas acabou. Agora só me resta reler algum dia.

Não vou mentir, estou escrevendo esse post há um tempo, porque simplesmente não sei como terminá-lo! Mas enfim, acho que já deu pra notar que eu gostei bastante do livro, né? Como parar de falar sobre uma coisa pela qual você se apaixonou? Difícil. Então, vou parar assim, do nada, por aqui, e deixar minha sugestão pra vocês. Ele é praticamente um livro de história e seria impossível falar resumidamente de tudo sobre o que ela escreve. Conhecendo a personalidade da Sei, acho que ela ficaria muito brava se eu fizesse isso. Seria uma deselegância profunda. Então só posso contar o quanto eu gostei e dizer que ele entrou para os preferidos, sem sombras de dúvidas.

Queria linkar aqui essa postagem da para o blog da Cosac Naify chamada Anotações para quando visitar o Japão, que achei que tem tudo a ver com o livro e complementa de certa forma a apresentação que eu fiz pra vocês.

É isso tudo.

(Obrigada, Dudu, por ter me dado um dos melhores presentes que já ganhei na vida!)

Alguns achados na juventude transviada do Japão

Sabe quando você bate o olho em algo e gosta sem saber muito bem o porquê? Então, foi o que aconteceu comigo quando vi essas no IdeaFixa. Eu geralmente não gosto de ficar reblogando coisas, mas não resisti a essas fotografias lindas. Elas são da Life e parece que são da época em que os Beatles passaram pelo Japão, na década de 60.

De todas as fotos, as que mais me chamaram atenção foram essas em que as pessoas destoaram completamente da vibe divertida e contagiante das festas. Eu identifiquei essa menina da camiseta listrada em três fotos. Parece cenas de um filme.

09_115019741-652x429 11_115019426-652x429  02_115029649 A menina da camiseta listrada sumiu, mas encontrei essas outras. A última fotografia é muito linda. Aliás, tudo é lindo, a iluminação, os lugares, as roupas. Uma bela inspiração. 04_115167235-652x429 14_115027844-652x429