Sobre descobrir uma (velha) nova paixão

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Olhando pra minha estante e pensando nas últimas trocas/compras de livros que fiz, notei que alguma coisa mudou por aqui. Tanto em mim, quanto na minha estante, que já tá sem espaço de tudo!

Eu já falei sobre esse assunto, mas o número de livros de literatura infantil/infantojuvenil cresceu de uma hora pra outra – os quadrinhos também passaram a ser um interesse mais recente – e esses tem sido os livros que mais procuro atualmente. Não me entendam errado, eu gosto muito de ler e isso quer dizer, bem, todos os livros que eu gosto de ler. Isso agora inclui também os livros infantis.

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Um professor francês, que eu estudei bastante nos últimos tempos, chamado Alain Bergala, disse em seu livro A Hipótese-Cinema que uma boa maneira de as crianças assistirem a filmes diferentes – daqueles que passam na TV e no circuito comercial – , que elas normalmente não assistiriam, seria dado a elas o acesso a esses filmes. Uma ideia para isso seria ter uma filmoteca na escola (e acho que em casa também funcionaria). Então, tendo acesso e contato frequente com aquele montão de filmes diferentes e desconhecidos, a criança poderia ir explorando da maneira que quisesse e ir descobrindo coisas novas por si própria.

E, então, lembrei que eu me vi numa situação parecida nas férias de janeiro desse ano. Fiquei hospedada na casa de um casal de professores amigos em Santa Teresa, no Rio, por duas semanas. Quando cheguei na casa, uma das primeiras coisas que vi foi a estante da Fabi. Uma estante repleta de livros infantis do topo até o chão.

Por duas semanas eu dormi e acordei ali do lado daquela estante e todos os dias pegava livros aleatórios pra ler. Deve ter sido de 15 a 20 livros no total (e eu teria lido mais, se não tivesse escrevendo minha dissertação naqueles dias). Tenho quase certeza de que essa foi a razão que me faz, agora, só querer ir na sessão infantil nas livrarias!

Eu não só fiquei curiosa para ler, como também, de repente, comecei a me lembrar de vários livros que eu gostava quando era criança. E tem sido uma experiência muito boa lê-los de novo.

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De repente, isso começou a apontar alguns caminhos inesperados pra mim. Comecei a descobrir coisas que eu gostaria de fazer, como hobby ou quem sabe como trabalho. Descobri alguns cursos interessantes,  eventos e lugares legais para ir. Descobri todo um mundo novo relacionado à literatura/produção editorial e editoras independentes que se tornaram fascinantes pra mim. Mesmo que tudo isso não dê em nada, a sensação é boa demais.

Isso me fez pensar em muitas coisas. A importância do acesso e do “se jogar” despretensiosamente em algo desconhecido. Primeiro, eu tenho certeza de que se eu não estivesse ido de férias praquela casa e passado horas e horas ao lado daquela estante, isso tudo não teria acontecido. Foi porque eu estava ali olhando pra eles e eles pra mim que tudo mudou. Claro que tem que ter um mínima empatia e curiosidade antes, mas… os livros infantis nunca foram objeto de interesse antes. Eles eram apenas uma boa memória e aquilo que te faz dizer: ah, que bonitinho!

Por outro lado, sempre penso que temos uma tendência muito grande em fazer as coisas já esperando algo em troca, com metas e objetivos que tem que ser alcançados desde já. E acho que isso acaba causando aquela ansiedade de ter que decidir logo e fazer logo alguma coisa (que eu já falei um pouco aqui no blog). Então, quando falo em se-jogar-despretensiosamente, tô falando disso, de aproveitar o momento, de se dedicar a uma coisa que te faz bem e que não vai te dar nada em troca, a não ser aquela sensação boa. E se por acaso render alguns frutos, bom, que sejam bons!

Mais do que boas histórias pra ler, é isso que os livros infantis me ensinaram nos últimos tempos.

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Para os curiosos de plantão, esses são os livros que aparecem nas fotos:

Quem tem medo de escuro? (Fanny Joly, Editora Scipione)

A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken (Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, Companhia das Letras)

Inês (Roger Mello, Companhia das Letrinhas)

Malala, a menina que queria ir para a escola (Adriana Carranca, Companhia das Letrinhas)

Ei! Tem alguém aí? (Jostein Gaarder, Companhia das Letrinhas)

Cantiga (Blexbolex, Cosac Naify)

O menino que mordeu Picasso (Antony Penrose , Cosac Naify)

A parte que falta (Shel Silverstein, Cosac Naify)

Bichos que existem & bichos que não existem (Arthur Nestrovski, Cosac Naify)

Três razões | A parte que falta

E a série continua, gente!

Dessa vez resolvi falar sobre esse livro que é bem minimalista no estilo, mas que, ó, joga um tema pra gente pensar que não é nada simples. Se engana quem pensa que esse livro é só pra criança…

Rabo de baleia

Um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

(Alice Sant´Anna)

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Desde a época da escola, eu sempre tive bastante dificuldade em ler poesia. Não sei o porquê! Não sei se por causa das poesias ou da forma como elas foram apresentadas a mim ou se eu sempre tive um problema mesmo. Com o tempo isso foi mudando, principalmente depois que você descobre que a poesia também está em outros lugares de outras formas. Pelo menos foi isso que aconteceu comigo.

E aí que de vez em quando a gente esbarra com umas coisas bonitas como essa que a Alice Sant’Anna escreve! Acho que desde a primeira vez que li esse poema não me esqueci mais dele. Sabe quando a coisa faz totalmente sentido na sua vida? E continua fazendo mesmo depois de um tempo? Pois é.

Mas não tem muito como explicar. Acho que é o tipo de coisa que te balança, mas você não saberia muito bem colocar logicamente em palavras o porquê. Eu até pensei em fazer um vídeo para o Três razões para ler, mas simplesmente não consegui. A única razão que me veio na cabeça foi: apenas leiam.

Fiquei pensando que talvez esse seja o motivo pelo qual demorei tanto pra gostar de ler poesia. A gente fica tentando encaixar tudo em explicações e interpretações lógicas e as vezes não é assim. É como aquela frase: não sei o que dizer, apenas sentir, haha! Enfim, estou contando essas coisas porque já encontrei muitas pessoas na vida que passaram por esses mesmos dilemas e achei que seria bom abrir o coração aqui pra vocês.

O livro Rabo de Baleia foi lançado pela Cosac Naify em 2013 e reúne esse e mais outros 34 poemas da Alice. Esse é o seu segundo livro publicado. O primeiro se chama Dobradura e foi lançado pela 7Letras. Pra quem quiser ler mais coisas, a Revista Um Conto publicou alguns poemas novos dela esse ano.

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Três razões para ler Minhas imagens do Japão

Se você gosta de literatura infantil, ilustração e cultura japonesa, provavelmente esse livro também é pra você.

Minhas imagens do Japão é um livro escrito por Etsuko Watanabe. Nele, a personagem Yumi, uma garotinha de sete anos, apresenta pra nós o Japão e como é viver lá: sua casa, a culinária, o dia-a-dia na escola, as datas comemorativas, o idioma, etc. Tudo isso ilustrado pela própria autora.

Eu me apaixonei pelo livro no momento em que o abri. Primeiro porque gosto muito de ilustrações de casas desde criança, principalmente as bastante detalhadas como são as desse livro. Segundo porque, junto com os desenhos, vem uma descrição do que é aquele ambiente, o que tem nele, pra que servem as coisas. E de quebra, a gente ainda aprende um pouco de japonês! A edição que eu tenho é de 2007, da Cosac Naify.

Assim que terminei a leitura fiquei morrendo de vontade de ler mais livros do mesmo estilo em que a autora fizesse a mesma viagem na cultura de outros países. Infelizmente, eles não existem…

Como já comentei várias vezes por aqui, sou apaixonada pelo universo infantil e tenho começado uma coleção de livros infantojuvenis. Eles são lindos, gostosos de ler e de ver e achei que seria uma boa ideia compartilhar com vocês junto com minhas outras leituras.

(Eu sempre quis fazer vídeos sobre livros e filmes, mas acho que não tem a ver comigo sentar e falar e falar e falar. Estava procurando saídas criativas pra isso e me inspirei na série Three Reasons que a Criterion Collection faz com os filmes. Acho que assim o vídeo e o post podem existir de forma independente e se complementarem. Espero que gostem!)

A Contadora de Filmes | Livros & Cinema

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Ainda estou na dúvida se esse livro é bonito demais ou triste demais. Acho que são os dois extremos, afinal, uma coisa não exclui a outra.

No meio do deserto árido do Atacama, no Chile, moravam Maria Margarita e sua família. Por incrível que pareça, naquele vilarejo pobre havia uma sala de cinema, mas a família não tinha dinheiro para que todos pudessem ir sempre. Como todos gostavam muito dos filmes, Maria Margarita foi escolhida para ir às sessões, voltar para casa e contar o filme para os outros.

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Assim, eles descobriram no cinema uma possibilidade de transcender a triste realidade em que viviam. E mais do que isso, contagiaram a todos do povoado com as narrações cheias de vida que a menina fazia.

Naquele tempo descobri que todo mundo gosta que alguém conte histórias. Todos querem sair da realidade um momento e viver esses mundos de ficção dos filmes, das radionovelas, dos romances. Gostam até que alguém lhes conte mentiras, se essas mentiras fossem bem contadas. Essa é a razão do êxito dos embusteiros de fala hábil.”

Além da escrita belíssima do Hernán Rivera, achei que ele coloca o cinema no seu lugar mais importante, na minha opinião, que é o encontro com o espectador. Não é preciso ser especialista para gostar de um filme, conhecer diretores, atores, para se apaixonar por uma história. Com o tempo, essas coisas virão, caso seja do interesse de cada um, mas não há pré-requisito para ser espectador de filme. E mais, não há pré-requisito para você fazer o que quiser com o filme uma vez que ele está dentro da sua cabeça.

A família de Maria Margarita e os moradores do vilarejo não assistiam aos filmes, eles assistiam a interpretação da menina, com sua voz e gestos. Uma vez que o filme está na nossa cabeça, ele se transforma, se mistura com a gente. Para mim, Maria Margarita é uma materialização dessa possibilidade que o cinema tem.

Então, subo até a torre da igreja para contemplar o horizonte. Cada crepúsculo é como a panorâmica final de um velho filme, um filme em tecnicolor e cinemascope – e o ruído do vento batendo nas chapas de zinco é a trilha Sonora. Um filme repetido dia após dia. Ás vezes triste, às vezes menos triste.”

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Eu estava presente quando uma pessoa presenteou a outra com A Contadora de Filmes e isso foi há bastante tempo. Recentemente, numa daquelas mega promoções que a Cosac Naify faz, decidi comprar e, vou dizer, está entre um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Ele é visualmente lindíssimo também. Não dá pra esperar menos da Cosac. O projeto gráfico é bonito demais e ele é bem pequeno, então dá pra colocar na bolsa e levar por aí sem incômodos.

E não é livro só pra quem gosta de cinema, não, viu? É livro pra quem gosta de história bonita. E um pouco triste também.

(Esse post faz parte do projeto Livros & Cinema. Clique aqui para conhecer!)

Três livros lindos para se ter em casa

Já dizia Walter Benjamin que umas das características de um colecionador de livros eram a de roubar livro dos outros e a de não necessariamente lê-los. A graça está em ter os livros, não exatamente em ler. Benjamin era um cara espero porque isso é muito verdade. Não, gente, não ando roubando livros por aí, hahaha, mas não tenho lido quase nada e, ainda assim, continuo comprando. Vai dizer que você também não faz isso?

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Esse mês foi bem atípico pra mim. Viajei duas vezes – pra Goiânia e pro Rio – e, embora nenhuma das viagens tenha saído exatamente como eu imaginei, voltei pra casa com um montão de livros lindos e isso fez tudo valer a pena, haha!

Resolvi reunir nesse post três dos livros que, arrisco dizer, são os mais bonitos – e coloridos! – que tenho e que comprei nessas viagens. Bonitos mesmo, gente, visualmente falando, independente do conteúdo. Mas, por favor, isso não é uma apologia à não-leitura dos livros, tá? Só quis reunir os três nesse post por esse motivo de beleza mesmo, haha!

1. Peter e Wendy, de James Matthew Barrie – Cosac Naify

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Não, isso não é um post pago, é minha opinião mesmo. Os livros da Cosac Naify são maravilhosos demais. São muito muito bem pensados e cuidados. Não tem nenhum que seja mais ou menos. Quando pego um livro que é muito bonito, nem preciso olhar pra saber que são deles.

Peter e Wendy é o livro maiscoloridosdetodosostempos da minha estante! A capa é interessantíssima. Ela é coberta por um outro papel translúcido azul e dá um efeito todo bonito.

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Mas o mais lindo de tudo é que as folhas são TODAS coloridas. Cada capítulo é de uma cor! É muito amor, gente! A escolha das fontes e das cores, tudo muito bonito. Se eu fosse criança, teria ficado doida com um livro desse, haha!

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Enfim, eu só conheço a história de Peter Pan dos filmes da Disney. Nunca tinha nem visto nenhum livro de perto, então acho que foi uma excelente compra! Ainda mais pelo preço. No site da Cosac Naify ele tá meio salgado, mas comprei uma feira em Goiânia por 30 reais \o/ Ele veio com um rasgadinho ali do lado – dá pra ver na primeira foto – mas nem liguei! *.*

2. Antologia da Literatura Fantástica – da Cosac Naify

A história da compra desse livro é muito curta: bati o olho nele, pensei GENTEQUELIVROMARAVILHOSO, e não larguei, hahaha. Foi assim mesmo. Eu estava dando voltas na Livraria da Travessa num shopping do Rio e parei na estante em que tinham vários livros do Borges. Daí vi esse.

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Lindo, da Cosac também, pra variar. As páginas são amarelinhas com a borda e o texto em azul. Achei classudo de-más!

Essa é uma antologia criada pelos autores Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, com histórias dos seus autores favoritos. Tem 75 contos (alguns fragmentos de livros e peças de teatro também), alguns grandes e outros curtíssimos, de um parágrafo. E é literatura fantástica, né? E Borges, né? Tem que ler, gente!

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3. Russian Films Posters, de Maria-Christina Boerner – Vivays Publishing

Bom, eu sei, esse é um livro mais específico. Nem todo mundo pode gostar, mas eu amo! Primeiro, porque amo cartaz de filme. Gostaria de poder colecionar meus favoritos, mas é impossível. Segundo, porque gosto de uma parte específica do cinema russo, mas é um país e uma língua que acho interessantíssimos. Não sei, tenho alguma fixação com eles, mas não sei explicar, haha!

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Na foto não dá pra sacar, mas o livro é grande, tem uns 40epoucos cm x 20epoucos cm. Ele tem 161 posters de filmes silenciosos russos do começo do século, até os anos 30.

Esses são os cartazes mais loucos e interessantes que já vi. É uma puta fonte de inspiração pros designers de plantão.

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Pra quem está familiarizado com a história do cinema, é claro que não poderia faltar os cartazes dos filmes de Eisenstein – o penúltimo ali de cima é o cartaz de Outubro – e Vertov, que é esse último, meu favorito de todos da vida e que inspirou minha futura tatuagem, haha. Tive a oportunidade de vê-lo ao vivo numa exposição do Rodchenko, artista que criou o cartaz (vou fazer um post sobre ele!).

Masss, o livro foi uma pechincha na Livraria da Travessa e o Dudu me deu de presente. Foi 50 reais. Sério, quando vi, achei que seria no mínimo uns 200. Ou seja, melhor compra do ano.

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Enfim, gente, era isso tudo! Eu fiquei super empolgada quando pensei nesse post e tirei muitas fotos, hahaha. Mas fiquei com medo de ficar muito longo e pesado aqui, então coloquei as fotos em tamanho original, além de outras, no meu Flickr!

E vocês, tem livros lindos pra indicar também?