O homem que não queria falar

Era uma vez um homem. Ele morava em um pequeno e velho apartamento no centro barulhento de uma cidade. O prédio ficava em uma travessa estreita e movimentada, o que fazia com que o barulho fosse ainda maior.

De uns tempos para cá, o homem começou a se sentir cansado. Não suportava mais aquela cidade, aquele barulho, todos os compromissos, todas as explicações que recebia e que tinha que dar. Ele estava certo que enlouqueceria e estava mais certo ainda que a culpa de tudo isso era dos seres humanos. Foram os humanos que deixaram o mundo chegar ao ponto em que estava, foram eles que criaram as línguas, os papeis, as máquinas, os prédios, tudo isso que deixava o mundo confuso, sujo, onde tudo tinha que ser explicado, ter uma razão, um objetivo. E mais, ele tinha certeza que foram essas invenções que criaram as guerras e que deixaram o mundo tão barulhento como estava. E ele só queria paz.

Naquela dia, tomou uma decisão: iria se isolar do mundo em seu apartamento e nunca mais falaria, não só com outras pessoas, mas ele nunca mais pronunciaria nenhuma palavra. Dessa forma ele viveria totalmente em paz, completamente diferente dos outros humanos, não tendo que se relacionar com mais nada e com mais ninguém.

Para que isso fosse possível, ele teria que se desfazer de tudo aquilo que o comunicava com outros homens. Então ele jogou o telefone fora, arrancou a campainha e quebrou o botão do seu interfone. Pronto, incomunicável.

Retornou ao quarto e aos poucos o zumbido da rua invadiu seu cubículo. Claro, ele teria que fechar as janelas permanentemente e foi isso que fez. Afinal, se não queria falar com os outros era porque também não queria ouvi-los.

Ainda xingando o barulho da rua, deitou em sua cama, tentando relaxar. Ele sentiu um efeito positivo de seu plano, ainda que mais psicológico do que real. Ficou tão satisfeito com suas decisões que começou a cantarolar uma música antiga que conheceu na adolescência.

Naquele momento, enquanto sua voz chegava a seus ouvidos, ele percebeu algo. O fato de que não quisesse mais falar não significava que ele não pudesse. Se ele ficasse com raiva iria xingar, se ficasse alegre iria cantar, se ficasse triste iria se lamentar. A fala era quase algo involuntário, era uma função do seu corpo humano e por causa disso ele corria o risco de falhar no seu próprio plano. Era inadmissível, ele tinha que ser o mais fiel àquela decisão. Passou um tempo pensando e chegou à conclusão de que a única forma para que ele não falasse mais era, de fato, se ele não pudesse. E o único jeito de que isso acontecesse era tirando aquilo que o possibilitava de falar: a língua.

Pegou a melhor tesoura que tinha em casa, foi para frente do espelho e esticou a língua. Mediu o maior pedaço que conseguia alcançar com a tesoura e cortou. O pedaço de carne caiu na pia. Ele o jogou no vaso sanitário e deu descarga.

Voltou para o quarto feliz. Agora não teria como quebrar seu plano. Deitou-se novamente e começou a pensar em que atividades ele poderia fazer já que ficaria trancado em seu quarto para sempre.

Começou a fazer uma lista mental quando deu um salto da cama. Ele não estava mais falando para fora, mas estava falando para dentro. Como havia sido inocente. As palavras não estavam só na sua língua, mas estavam também na sua cabeça. Por causa disso ele ainda conseguia cantarolar a música, ouvir o barulho da rua, ver seus vizinhos conversando, as crianças brincando na travessa, as máquinas da fábrica funcionando, sua campainha tocando. Tudo aparecia em sua cabeça como se ele estivesse contando para ele mesmo.

O homem ficou sem saber o que fazer. Começou a andar de um lado para o outro no apartamento, nervoso, se debatendo. Como ele se livraria do mundo se as palavras dentro da sua cabeça o construíam novamente? Quem sabe se ele vivesse em um lugar vazio, sem nada, aos poucos ele não esquecesse de tudo e sua cabeça ficasse vazia também?

Totalmente descontrolado, abriu as janelas e começou a quebrar e a jogar suas coisas na rua. Tudo o que tinha, tudo o que conseguia carregar foi jogado pela janela. Livros, fotografias, roupas, móveis. No quarto não sobrou quase nada.

Mas aquilo não foi suficiente. O homem continuou a andar nervoso pelo apartamento, pensando no que ainda poderia fazer. Tudo continuava em sua cabeça e quanto mais ele pensava, pior ficava. Não bastaria o lugar estar vazio porque sua cabeça também deveria estar. Então ele pegou a mesma tesoura que havia usado para cortar a língua e começou a furar sua testa. Quem sabe assim tudo não vazasse pelos furos e jamais retornasse?

Depois de horas se debatendo, o homem caiu no chão, cansado. Ele não tinha mais forças para continuar e percebeu que seu plano jamais daria certo. Era impossível se livrar do mundo porque o mundo estava nas palavras e as palavras estavam dentro dele.

Sendo assim, o homem não viu outra saída. Como se livrar do que estava dentro dele? Não existindo mais. A morte era a solução. Por que não havia pensado nisso antes? Era a resposta mais rápida e mais óbvia.

Se levantou do chão e caminhou até a sacada. Olhou para baixo. Ele morava no sexto andar, era uma boa queda. Fechou os olhos, torcendo para que fosse rápido e indolor. Ao abrir os olhos, porém, ele viu uma mulher na sacada do prédio em frente ao seu. A travessa era muito estreita e, por causa disso, estavam relativamente perto.

Ela era, certamente, a mulher mais bonita que já havia visto. Os cabelos caídos pelos ombros e o simples vestido de verão estavam iluminados pelo sol que começava a se pôr. Então ele sentiu um aperto no peito.

A mulher olhou para ele também e nesse momento alguma coisa aconteceu. O homem ficou imerso nos olhos dela e não mais falou e não mais pensou naquele instante eterno.

***

Esse texto foi escrito por mim para uma disciplina do mestrado nesse último semestre. O trabalho consistia em escrever um texto baseado no que estudamos a partir do livro Infância e História, de Giorgio Agamben.

O primeiro post do ano e o mais corajoso até agora

(No primeiro post do ano, resolvi fazer algo que eu nunca tive coragem de fazer: publicar um texto meu. Eu escrevo desde que era criança e sempre tive muita vergonha de mostrar o que eu fazia. Mas recebi um estímulo esses dias e resolvi começar o ano realmente fazendo algo diferente. Acreditem, não foi fácil pra mim, mas também… não tenho tantos leitores assim, haha! Ah, e ainda não tem título)

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A janela estava aberta e o vento fazia as cortinas balançarem. Na mesa de centro repousava uma xícara com um resto de café no fundo, denunciando que ela estivera ali, sentada na poltrona favorita dele. No chão haviam folhas espalhadas pelo vento. O violão estava encostado no canto de sempre. Ele acendeu um cigarro e ficou parado na varanda por algum tempo. Ele ainda podia sentir seu perfume. Talvez ela estivesse escondida em algum lugar.

Ele apurou os ouvidos. Estava tudo em silêncio, nenhum carro passava na rua. A casa estava toda escura. Ele terminou o cigarro e foi para a cozinha. A cafeteira estava em cima da mesa e os pratos sujos na pia. Ela provavelmente tinha feito algo pra comer antes de ir embora. Não, ela não tinha ido embora. Ela estava ali.

Ele andou rapidamente até o banheiro. Nada. Foi até o quarto. Nada. Se jogou na cama. Não era possível, ainda estava quente. Resolveu, então, tomar um banho. Estava tão cansado… Como se tivesse corrido quilômetros e quilômetros. Mas tinha ido apenas comprar mais cigarros no bar da esquina.

De repente começou a ouvir. Ela estava dançando. Os Beatles, como sempre. Se ele fechasse os olhos, conseguia ver até os passos que ela fazia pelo corredor. Ela ria e ria. Ele riu também. Ela sabia o que estava fazendo com ele. Mas ele não ia se apressar no banho. Ele podia vê-la dançando na varanda, sem se importar com o vento frio. Os cabelos curtos balançando. As mãos soltas no ar…

Ele fechou o chuveiro. Subitamente a música parou. Se enrolou na toalha e abriu a porta do banheiro. A casa continuava escura. Não era possível ela ter saído tão rápido. Se apressou para o quarto, vestiu a primeira roupa que encontrou e saiu de casa correndo. Ainda dava tempo de encontrá-la na rua.

Estava muito frio. Já devia ser mais de meia-noite. Tinha perdido completamente a noção do tempo no banho. Não havia ninguém na rua, mas as luzes do bar na esquina ainda estavam acesas. Andou tão rápido que não chegou nem na metade do cigarro.

Assim que entrou no bar e parou no balcão, ele a viu. Ela estava sentada na mesa do canto com algumas amigas. Elas estavam rindo e fazendo muito barulho. Tão bonita. O sorriso mais bonito que ele já tinha visto. Seus olhares se cruzaram por alguns segundos. Ela acenou timidamente e voltou a conversar com as amigas. Ele apenas sorriu. O coração quase saindo pela boca.

“Opa, resolveu voltar?”, perguntou um dos garçons. Ele respondeu, distraído: “É, eu tinha que comprar mais cigarros”. Comprou os cigarros e saiu do bar. Era quinta-feira. Sempre às quintas.

Desceu a rua de volta para casa lentamente. Ele tinha certeza que, quando chegasse, ela estaria lá.